Unir forças dos Brics para um futuro melhor

Chen Peijie*

A China sediou, há poucos dias, três eventos de relevância mundial: a 14.ª Cúpula dos BRICS, o Diálogo de Alto Nível sobre Desenvolvimento Global e o Fórum Empresarial dos BRICS. Ao final dessa série de eventos, foi lançada a Declaração de Beijing. Diante de transformações sem precedentes nos últimos cem anos e diante da pandemia do século, o sistema de governança global e a conjuntura internacional passam por reajustes acelerados e a recuperação da economia mundial encontra-se num momento crítico. É nesse contexto que o sucesso dos eventos mencionados e os resultados ali alcançados, sobretudo as ideias apresentadas pelo presidente Xi Jinping em seus discursos, ganham um significado especial que transcende os BRICS, principalmente na resposta a conflitos e desafios globais e na promoção da paz e do progresso mundiais.

Primeiro, consolidar a voz dos BRICS em defesa da equidade e da justiça internacional com base na segurança universal. A paz e a segurança no mundo são a premissa para o desenvolvimento comum de todos os países, enquanto a equidade e a justiça na arena internacional constituem o ponto de partida fundamental para a governança global. Portanto, os BRICS têm a responsabilidade comum de emitir um forte sinal em favor desses temas.

Ao apresentar a Iniciativa de Segurança Global, o presidente Xi Jinping afirmou que a comunidade internacional deve rejeitar os jogos de soma zero e repudiar o hegemonismo e a política de poder. Devemos construir um novo tipo de relações internacionais fundamentado no respeito mútuo, na equidade, na justiça e na cooperação de ganhos mútuos. Precisamos ter em mente que formamos uma comunidade interdependente com interesses comuns.

Importantes mercados emergentes e grandes países em desenvolvimento, os BRICS precisam agir com o senso de responsabilidade para trazer força positiva, estabilizadora e construtiva ao mundo. Devem defender a justiça, a equidade e a solidariedade em vez de hegemonia, bullying e divisão. É importante emitir a voz da justiça, promover a prática do multilateralismo genuíno no mundo, e salvaguardar o sistema internacional centrado na ONU e a ordem global sustentada pelo direito internacional. É hora de abandonar a mentalidade da Guerra Fria e do confronto entre blocos ideológicos, rejeitar sanções unilaterais e abusivas e prezar a “grande família” da comunidade de futuro compartilhado em vez de formar “panelinhas” ditadas pela hegemonia.

Na Declaração de Beijing adotada na Cúpula, os BRICS expressaram sua posição comum sobre o apoio ao multilateralismo e a melhoria do sistema de governança global, apresentando propostas para a defesa pela paz mundial. Os países do grupo alcançaram consensos sobre o fortalecimento da coesão e da cooperação em resposta a novas características e desafios da situação internacional. Os BRICS expuseram uma posição unânime sobre a resolução pacífica da crise da Ucrânia e outras questões relevantes. Além disso, coincidiram sobre a cooperação em áreas como antiterrorismo, anticorrupção, controle de drogas e segurança cibernética; realizaram concertação em apoio ao sistema de controle de armas, desarmamento e não proliferação, assim como o compromisso de uma coordenação mais intensa nas Nações Unidas e em outros fóros multilaterais.

Partindo da sua tradição de diplomacia independente, os BRICS promovem um multilateralismo em grande escala, injetam novo impulso na paz mundial e na governança da segurança global, destacando sua atuação no cenário internacional.

Segundo, oferecer a contribuição dos BRICS para uma economia mundial mais aberta com foco no crescimento global. O progresso comum de todos os países garante a paz e a segurança duradouras no mundo. Para tanto, é necessário construir uma economia mundial mais inclusiva e aberta e os BRICS compartilham responsabilidades nessa causa.

Independentemente das circunstâncias, a paz, o desenvolvimento, a cooperação e os ganhos mútuos constituem a tendência do nosso tempo. Devemos ter mais convicção sobre essa tendência diante dos desafios globais: uma pandemia prolongada, as dificuldades para cumprir as metas da Agenda 2030 da ONU, o aumento da divisão Norte-Sul, e as proeminentes crises de alimentos e de energia. Para tanto, devemos promover amplas consultas e contribuições conjuntas em busca de benefícios compartilhados, fomentar a governança da economia global e aumentar a representatividade e a voz dos mercados emergentes e dos países em desenvolvimento. Isso garantirá a igualdade de direitos, de regras e de oportunidades para todos os países. Para assegurar uma globalização econômica mais saudável, devemos defender o sistema multilateral de comércio representado pela OMC, e reforçar coordenações das políticas macroeconômicas. Os principais países desenvolvidos precisam adotar políticas econômicas responsáveis para evitar impactos negativas nos países em desenvolvimento.

Ao detalhar a Iniciativa de Desenvolvimento Global apresentada pela China, o Presidente Xi Jinping fez quatro propostas para viabilizar um desenvolvimento pautado em benefício universal, equilíbrio, coordenação, inclusão, cooperação de ganhos compartilhados e prosperidade comum. As propostas são: construir consensos internacionais para promover o desenvolvimento e a implementação da Agenda 2030 da ONU; criar no mundo um ambiente propício ao desenvolvimento e um sistema de governança global com regras mais justas e equitativas; cultivar novos motores para o desenvolvimento global, priorizando as inovações científicas, tecnológicas e institucionais, em busca de um crescimento mais robusto, mais verde e mais equilibrado; formar uma parceria de desenvolvimento global para que o Norte e o Sul cheguem a um meio-termo, numa dinâmica de coesão, equidade, equilíbrio e inclusão. Para colocar em prática a Iniciativa de Desenvolvimento Global, o governo chinês lançou uma série de medidas, como a criação do Fundo para o Desenvolvimento Global e Cooperação Sul-Sul, o estabelecimento de um centro de promoção para o desenvolvimento global e uma rede global de conhecimento sobre o tema, além de publicar o Relatório de Desenvolvimento Global.

A cooperação pragmática e de boa-fé entre os BRICS tem trazido, na prática, mais crescimento econômico e social aos países e mais bem-estar a sua população e serve como referência para a parceria com outras nações. Cito um exemplo interessante: recentemente uma plataforma de comércio eletrônico fez uma live em Xiamen, para vender produtos variados dos BRICS. A sessão foi bastante movimentada e rendeu grandes resultados, entre eles, a carta de intenção de uma empresa chinesa para a compra de 45 mil toneladas de grãos de café do Brasil entre 2023 e 2025.

A Cúpula dos BRICS produziu uma série de declarações conjuntas, iniciativas e acordos, materializando os consensos para promover a sustentabilidade do desenvolvimento global, preservar o sistema multilateral de comércio e aprimorar as regras do comércio internacional. Com isso, serão identificados novos pontos de crescimento para a facilitação do comércio e a recuperação econômica, tornando a parceria pragmática dos BRICS mais robusta e mais aprofundada, com benefícios mais tangíveis.

Terceiro, escrever as histórias dos BRICS em suas ações para o entendimento mútuo e o intercâmbio cultural e interpessoal. O intercâmbio entre as pessoas é fundamental para a compreensão mútua e a amizade entre os BRICS e seus povos, e nesse processo há muitas histórias para contar.

Nos últimos anos, a programação nesse sentido está cada vez mais rica e diversificada. No ano corrente houve avanços ainda maiores nas áreas como governança nacional, cultura, educação, esportes, artes, cinema, mídia, juventude e academia. O recém-aprovado Plano de Ação Conjunta no campo cultural facilita a cooperação entre empresas do setor nos próximos cinco anos; a criação de uma aliança para a educação profissionalizante e o reconhecimento mútuo de normas técnicas ajudarão a integração da educação vocacional e das indústrias; o Fórum de Lideranças Femininas dos BRICS e o concurso de Inovação para as Mulheres trouxeram conhecimentos sobre inovação e empreendedorismo. Uma das vencedoras desse concurso foi uma psicóloga e gestora de negócios brasileira. Além disso, os festivais de cinema Galo de Ouro e Cem Flores, dois dos mais tradicionais da China, instalaram uma seção especial dos BRICS para apresentar os últimos trabalhos e promover o intercâmbio, a amizade e a cooperação através do cinema. Todos esses esforços deram um sólido alicerce na opinião pública que viabiliza uma inclusão e um aprendizado mútuo na nossa parceria cultural visando o conhecimento, a afinidade e a parceria.

Nessa interação há inúmeras histórias comoventes. Nos Jogos Olímpicos de Inverno em Beijing, atletas dos BRICS competiram para mostrar o melhor de si, e o Brasil enviou a maior delegação da sua história. Bailarinos brasileiros fizeram uma coreografia impressionante ao som da música-tema dos Jogos Olímpicos e Paraolímpicos de Inverno de Beijing. Juntos, vamos escrever outras histórias mais empolgantes dessa parceria.

No meio de sua segunda década de ouro, os BRICS abrem uma fase de desenvolvimento de alta qualidade. Pensando no futuro dos BRICS, o Presidente Xi Jinping fez quatro sugestões: primeiro, persistir na solidariedade para salvaguardar a paz e tranquilidade do mundo; segundo, persistir na cooperação para impulsionar o desenvolvimento e responder aos riscos e desafios; terceiro, persistir no pioneirismo e na inovação para liberar o potencial e a vitalidade da cooperação; e quarto, persistir na abertura e na inclusão para reunir conhecimentos e forças. Creio que essas sugestões também estejam em sintonia com a expectativa comum dos demais parceiros do BRICS. Na condição de mercados emergentes e países em desenvolvimento com relevância global, os BRICS certamente farão maiores contribuições ao mundo, partindo do espírito de abertura, inclusão, cooperação e ganhos mútuos. Mantendo a união e seguindo um caminho bem traçado, vamos trabalhar para que a governança e o desenvolvimento do mundo avancem para uma nova era caracterizada pela segurança, equidade e sustentabilidade!

“Reunindo nossas forças, somos capazes de vencer qualquer batalha; juntando nossos saberes, somos capazes de alcançar as metas”, diz um ditado chinês. Como membros dos BRICS e importantes países em desenvolvimento, China e Brasil devem fortalecer a confiança, promover a união das forças dos BRICS e potencializar a cooperação. Juntos vamos trabalhar para formar uma comunidade de futuro compartilhado entre os nossos países e o mundo todo, trazendo felicidade, desenvolvimento social e paz mundial.

*Chen Peijie, cônsul-geral da China em São Paulo

Publicado na edição desta quarta-feira, 06, no Estadão.

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