O BRASIL OLÍMPICO É BRONZEADO

As Olimpíadas do Rio foram um sucesso. Não teve Comando Vermelho ou Estado Islâmico que abalasse a festa. Claro que houve um contratempo aqui, outro acolá, mas a cidade do Rio e o Brasil gozam de saldo altamente positivo.

Em relação à participação brasileira, há quem pense que o resultado não justifica o investimento público. Discussão a parte, o Time Brasil quebrou recorde de medalhas, ocupando um honroso 13º lugar na competição.

Talvez o maior legado que fique seja a história de vida e superação de atletas nacionais que atingiram o olimpo (com o perdão da redundância) do esporte. É deles que falaremos aqui.

Rafaela Silva, Thiago Braz e Robson Conceição são atletas de ouro. As medalhas douradas conquistadas nos jogos do Rio transformaram estes atletas em heróis instantâneos de nossa pátria. Já o eram antes.

As histórias de vida são semelhantes. Rafaela compõe as mais diversas minorias.  Mulher, negra e favelada. Homossexual assumida. Menina criada no berço da violência, não brincava de boneca. Brincava de luta. Queria jogar futebol, mas havia vaga apenas nas aulas de judô promovidas pela Associação de moradores da Cidade de Deus. De lá, pulou para o Instituto Reação, do judoca Flávio Canto. Primeira brasileira campeã mundial na modalidade, foi desclassificada nos Jogos de Londres por aplicar, ironia do destino, o mesmo golpe que deu a medalha de bronze ao seu mentor, Flavio Canto, em Atenas. A derrota não veio só. Rafaela foi atingida por uma série de comentários racistas nas redes sociais. Mergulhou em profunda depressão. A ajuda psicológica foi tão efetiva que hoje cursa a matéria. Triunfou! Hoje é campeã olímpica de judô.

Thiago Braz foi abandonado, ainda criança, por sua mãe, usuária de drogas. Esperou por dias a sua volta com uma mochila nas costas. Ela não voltou. Foi criado pela avó, que declarou após a conquista do ouro que Thiago “escapou de palmadas” com a medalha. Além da infância difícil, Thiago enfrentou um grave problema neste ciclo olímpico: uma lesão no punho esquerdo resultou em cirurgia que atrapalhou sua preparação e abalou sua confiança. Os 6,03m que superou na final do salto com vara, derrotando o franco favorito Renaud Lavillenie, recordista mundial e até então campeão olímpico, o colocaram no panteão dos heróis do esporte mundial, já que a marca é o novo recorde olímpico.

Robson Conceição é um baiano típico. Extrovertido e bem-humorado, não é sujeito de meias-palavras. Ao derrotar o campeão mundial e favorito ao ouro, o cubano Jorge Alvarez, declarou que adorava os lutadores daquele país, mas que Alvarez era muito “marrento”. Robson já foi feirante e servente de pedreiro. Começou a lutar apanhando nas ruas de Boa Vista de São Caetano. Queria ser como seu tio Roberto, famoso no bairro pelas brigas que protagonizava na pipoca do carnaval baiano. Tornou-se campeão olímpico.

Digna de nota honrosa também foi a participação de Isaquias Queiroz. Sua vida inspiraria um dramalhão. Perdeu o pai aos 2 anos. Aos 3, foi vítima de graves queimaduras quando uma panela de água fervente derramou sobre si. Foi desenganado. Aos 10, desequilibrou-se de uma mangueira e caiu de costas sobre uma pedra. Este acidente custou-lhe um rim. Já canoísta, foram muitos os obstáculos. Campeão mundial júnior em 2011, ficou fora do Pan de Guadalajara e das Olimpíadas de Londres. No mundial de 2014, Isaquias liderou quase toda a prova individual dos 1000 metros. Perdeu o título por mergulhar na água para comemorar antes de cruzar a linha de chegada. Um acidente de carro em 2015 foi o último dos grandes percalços. Hoje, com suas 2 pratas e seu bronze, é o atleta brasileiro que mais conquistou medalhas em uma única edição dos jogos.

As histórias destes rasileiros se encontram na dor, na cor e na superação. São frutos de vidas sofridas. Filhos de lares desvalidos. Esculpidos na dificuldade. Vencedores.

Esses jovens simbolizam a essência de nossa nação. Uma nação que sofre desde sua colonização. Que atravessou estados totalitários. Vivenciou turbulências econômicas, testemunhou filhos seviciados, descamisados, famintos. Uma pátria que sangra pela corrupção. Um gigante que, como seus heróis, triunfará.

Deixe uma resposta

Fechar Menu