Num tempo, página infeliz da nossa história

Hoje o Brasil encerrou um ciclo. O Senado Federal impediu a Presidente Dilma Rousseff. Foram 61 votos a favor e 20 contra. É tempo de reconstruir o país.

Foram 13 anos e 8 meses com o Partido dos Trabalhadores à frente do Poder Executivo. A ascensão do PT ao poder foi carregada de simbologias. Um operário ocupava, então, o cargo mais importante da República. Um retirante que, em seu discurso de posse, afirmava que o diploma presidencial foi o primeiro que recebia em sua vida.

Nunca a utopia do poder popular foi tão viva. Luiz Inácio Lula da Silva ganhou as eleições após três derrotas seguidas em pleitos anteriores. Moderou o discurso para conquistar seu objetivo. Aparou a barba. Baixou o tom.

No início de seu governo, manteve a mesma política econômica ortodoxa (tão criticada por ele) praticada por seu antecessor FHC. Aproximou-se da banca. Da FIESP. Do agronegócio. Fez bem. O Brasil precisava, e precisa, gerar emprego e renda. Crescer.

Os problemas começaram em 2005. O vídeo que documentou o pagamento de propina a um funcionário de 3º escalão dos Correios detonou o escândalo que viria a ser conhecido como mensalão. O Governo Lula teria pago uma mesada a deputados que compunham sua base em troca de apoio político.

Muitos achavam que era o fim do presidente operário. A oposição, que àquela altura dispunha de ferramentas e votos para cassar o mandato de Lula, resolveu levar a crise em banho-maria a fim de enfrentar um candidato enfraquecido em 2006. Grave erro estratégico. Em 29 de outubro daquele ano, Lula foi reeleito em 2º turno com mais de 58 milhões de votos (60,83% do total válido).

O 2º mandato de Lula continuou assombrado pelo fantasma do mensalão e também por outros escândalos, como a aquisição da empresa de seu filho Fábio Luís pela Telemar, empresa que tinha o Governo Federal como acionista e o caso dos cartões corporativos, cujo episódio mais visível foi a compra de tapioca pelo Ministro dos Esportes Orlando Silva com o dinheiro público.

Dois fatores, no entanto, foram primordiais para a manutenção da força e recuperação da popularidade de Lula: a pujança da economia e sua imensa capacidade de se comunicar do povo.

Lula surfou em uma onda de crescimento econômico global. Ainda que o Brasil tenha sido, dos integrantes dos BRICS, o que menos cresceu no período, é inegável que o poder de compra do salário dos trabalhadores aumentou consideravelmente. Com o crédito fácil, a classe C foi ao paraíso. O povo pôde adquirir geladeiras e aparelhos de televisão como nuca antes na história deste país.

Poucos conseguiram falar a língua do povo como Luiz Inácio. Até por sua origem humilde, nordestina e sua atuação no chão de fábrica, o ex-presidente falava de igual para igual com o brasileiro médio. Ficaram também famosas as metáforas ligadas ao futebol, paixão que move grande parte da nação. As palavras do presidente tocavam o coração.

Com a popularidade de outrora recomposta, Lula escolhe sua Chefe da Casa Civil para sucedê-lo. Dilma Rousseff não tinha característica de política. Era tida como uma “gerentona”. Uma tocadora de obras. Até por isso, Lula colocou-a a frente das obras do Programa de Aceleração do Crescimento. Nascia a figura da “Mãe do PAC”. Surgia a nova Presidente da República.

No início de seu mandato, Dilma procurou descolar de Lula. Demonstrou-se implacável no combate à corrupção. Afastou ministros importantes, como Antônio Palocci, sobre os quais pairavam suspeitas. A impressão geral é a de que seria um governo austero. Veio então a crise econômica. A moral. As mentiras…

O pior estava por vir. Em março de 2014, foi deflagrada a Operação Lava Jato, a maior investigação sobre corrupção da história. A Lava Jato terminou por esfarelar o que restava da imagem petista ante a sociedade brasileira. Ainda assim, a imagem de honestidade da Presidente estava intacta.

Mas Dilma sabia de Pasadena. Participou ativamente de sua aquisição. Era dela a palavra final como presidente do conselho de administração. A Petrobras comprou por U$ 360 milhões 50% de uma refinaria adquirida em sua totalidade pela belga Astra Oil por U$ 45 milhões apenas um ano antes. Por uma cláusula contratual altamente maléfica para a petroleira brasileira, foi obrigada a comprar a outra metade. O custo total foi de U$ 1.18 bilhão, valor 27 vezes superior ao que a Astra teve de desembolsar.

Mesmo com todos os percalços e a custa de muitas mentiras, Dilma foi reeleita. Afirmou que a conta de luz baixaria. Prometeu a queda dos juros. Garantiu a redução de impostos. Afiançou que não haveria cortes na Educação. Balelas…

No início de 2015, o castelo ruiu. Com o avanço da Lava Jato, o envolvimento de políticos com a roubalheira na estatal ficou evidente. Lula, como hoje é notório, ganhou e ocultou patrimônio às custas de benesses de empreiteiras beneficiadas no esquema. Além disso, com o avanço do processo de impeachment, foram demonstradas as pedaladas cometidas por Dilma. O PT, enfim, foi apeado do poder.

Não se podem apagar alguns feitos do PT em favor do Brasil. O principal deles: alimentar um povo faminto. Lula tirou o Brasil do vergonhoso mapa da fome. O Bolsa-Família não trouxe nenhum brasileiro para a cidadania mas encheu a barriga de uma gente a quem nem uma refeição diária era garantida.

No que diz respeito aos seus erros, o Partido dos Trabalhadores tropeçou naquilo que lhe era mais caro: o combate à roubalheira. É inegável o papel combativo do partido em casos anteriores de corrupção. O PT foi ponta na fiscalização de diversos governos. Cumpriu com excelência este papel. O problema foi a transmutação da pedra em vidraça…

Ainda há um longo caminho a ser percorrido. A Lava Jato deve avançar. O momento é de tolerância zero para qualquer ato de corrupção. Políticos ladrões precisam ser cassados e presos. A solução “gambiarra” que impediu Dilma mas manteve seus direitos políticos não pode ser a ponte para a impunidade. O Brasil clama por uma política transparente feita por homens e mulheres que sirvam ao Estado e não se sirvam dele. Hoje, o grande passo foi dado.

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