Meirelles preenche o vazio

Interlocutor

O ministro Henrique Meirelles vai, aos poucos, assumindo o papel de interlocutor do governo Temer no Congresso Nacional. Sem meias palavras, tem usado sua autoridade no meio empresarial para convencer parlamentares sobre a necessidade do ajuste fiscal.

Nesses últimos dias, o titular da Fazenda tem insistido na inconveniência de o Congresso Nacional fazer modificações substanciais no projeto de teto de gastos, que limita as despesas da União e dos demais entes federativos, ano a ano.

Meirelles até admite que os parlamentares realoquem recursos orçamentários entre as diversas rubricas. Mas, de forma nenhuma, que modifiquem o teto de gastos, que, a cada ano, deve estar vinculado à inflação do ano anterior.

Ao mesmo tempo, tem jogado duro com os governadores, cujos estados estão no limite das disposições orçamentárias e financeiras, com parte desses governadores, inclusive, ameaçando, decretação de estado de calamidade.

Aos líderes das Unidades da Federação, Meirelles tem, em substituição aos pedidos de ajuda financeira, acenado com o aval a empréstimos, no limite de até R$20 bilhões de reais. E, só. Nada além.

Papel

Meirelles cumpre papel que o segmento mais rigorosamente vinculado à política do governo Temer não vem cumprindo, com inúmeros recuos verificados desde o início da atual gestão, o que tem deixado o mundo empresarial, preocupado.

Bem mais susceptível às primeiras pressões do campo parlamentar, os líderes governistas cedem, facilmente, o que tem, em casos concretos, já, mudado substancialmente projetos que fazem parte do ajuste fiscal como um todo.

Exemplos dessas cessões foram recentes aumentos salariais concedidos, especialmente aos servidores do Judiciário, conforme decisão dos parlamentares, devidamente sancionada pelo Palácio do Planalto.

Esgotados os alertas da área econômica, o presidente Temer acabou vetando integralmente, semana passada, o aumento concedido à Defensoria Pública, enquanto o Congresso congelou o trâmite da proposta de aumento à Procuradoria Geral da República e aos ministros do STF.

Não escapa aos observadores a ação peremptória comandada por Meirelles, junto ao Planalto, contra esses furos ao projeto geral de ajuste fiscal, resultando nesses vetos presidenciais mais recentes.

Porta-voz

Enquanto o ministro Meirelles vai assumindo o relevante papel de negociador privilegiado do governo no Congresso Nacional, Temer busca alguém que exerça o papel de comunicador oficial das posições do governo.

Diferentemente do que faz Meirelles, há ministros no governo que têm se encarregado de adiantar projetos, muitos deles, sem qualquer aprofundamento no Planalto, provocando reações antecipadas e prejudiciais ao governo.

O problema é saber até quando o ministro Meirelles vai continuar servindo como porta-voz não oficial do governo, principalmente na defesa de uma proposta que é vista como vital para o sucesso do atual projeto governamental.

O perigo é que ele avance demais sobre o papel tradicionalmente desempenhado pela política, provocando ciúmes às vésperas da realização das eleições gerais de 2018, onde as mais importantes siglas governistas têm projetos próprios, em vista.

Por enquanto, ele segue preenchendo o vazio existente, apostando num crescente e irresistível fortalecimento do seu papel, e, evidentemente, esperando que, ao fim e ao cabo, não seja confrontado pelas ruas, o que modificará completamente o rumo dos fatos.

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