João Gilberto: ponto de inflexão na MPB

Sérgio Botêlho

Lógico que a Música Popular Brasileira já existia, bela e forte, principalmente a partir da entrada em cena do samba. O que João Gilberto fez foi estabelecer-lhe um ponto de inflexão temporal a partir do que a MPB deu um salto de prestígio no contexto internacional.

É certo que, na década de 40-50, Carmen Miranda buscou alçar nossa música a planos maiores, nos Estados Unidos, e conseguiu, em parte. Mas, não na dimensão do que alcançou a música de João Gilberto junto com Tom Jobim e Vinícius de Morais, festejada por artistas e estudiosos de renome internacional.

“Músicos no mundo inteiro querem entender como tocar violão e cantar como João Gilberto, mas, não é possível”, resumiu, neste sábado, 06, à noite, dia da morte do baiano que encantou a Terra com seu compasso no violão, em entrevista na CBN, Frederick Moehn, americano, professor na King’s College London e autor de livros e artigos sobre a música brasileira.

Bossa Nova

O processo de mudança na MPB teve nome e sobrenome: Bossa Nova, forjada a partir do jeito diferente de bater o samba no violão, criado por João Gilberto, conforme ressalta o professor entrevistado pela CBN, junto a músicas de Tom e letras de Vinícius.

“Chega de saudade” foi o acontecimento que consolidou a nova tendência da música brasileira, conquistando a crítica norte-americana e de várias partes do mundo, e influenciando as futuras gerações de músicos, compositores e cantores brasileiros.

“Desafinado”, “Garota de Ipanema”, “Corcovado”, “O pato”, “Bim bom”, “Doralice”, “Samba de uma nota só”, “Aquarela do Brasil”, “Para machucar meu coração”, “Rosa Morena”, “Coisa mais linda”, viraram obras musicais de referência na voz e no violão de João Gilberto.

Fama

Tudo isso era parte da Bossa Nova fazendo de Garota de Ipanema a segunda música mais gravada no mundo inteiro, depois de “Yesterdey”, dos The Beatles, segundo escreveu O Globo em reportagem veiculada pelo jornal em 2012.

Segundo O Globo, só naquele ano de 2012, os herdeiros de Tom Jobim e Vinicius de Moraes aprovaram a utilização na série “Mad men”, num filme dos irmãos Coen e em campanhas da Nike e da Calvin Klein, dentre outras consultas. Daquele ano para hoje, não se sabe.

Conforme levantamento na Wikipedia, a canção já foi interpretada por diversos e afamados cantores internacionais, a exemplo de Frank Sinatra, Amy Winehouse, Cher, Mariza, Plácido Domingo e Madonna, presente, também, em numerosos filmes.

Garota de Ipanema, com música de Tom Jobim e letra de Vinícius de Morais, segundo a reportagem, foi lançada em 02 de agosto de 1962, em pequena boate de Copacabana, por Tom, Vinícius e João Gilberto, acompanhados de Os Cariocas.

Na batida da Bossa Nova seguiu-se uma geração de ouro da MPB, todos com referência no movimento, a exemplo de Chico Buarque, Roberto Carlos, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Edu Lobo, Paulinho de Viola, para lembrar alguns.

De acordo com a reportagem do jornal fluminense, encontram-se, na internet, versões em finlandês, estoniano e até esperanto. “E a inclusão em filmes, programas de TV, comerciais e jogos eletrônicos não para”, enfatizava a matéria.

Ciclo e permanência

Já mortos Tom Jobim e Vinícius de Morais, o desaparecimento de João Gilberto fecha o ciclo mais virtuoso da música feita no Brasil, até o momento, transformando o acontecimento em matéria de destaque de repercussão na mídia internacional.

Bom que a música de João Gilberto não desaparecerá dos registros cada vez mais amplos da Internet, e continuará, ótima, fazendo bem ao espírito, influenciando gerações de artistas, e levando-nos, ao escuta-la, a um plano superior que somente são capazes obras culturais criativas e fecundas, verdadeiras e honestas, elevadas e primorosas, como a de João Gilberto.

Isso é o que nos faz acreditar na necessidade de que nossa cultura continue livre, independente e prestigiada, permitindo o surgimento de outros Joãos Gilbertos, no futuro, o que garantirá ao Brasil presença contínua e inestimável, sob todos os pontos de vista, do cultural ao nacional, passando pelo econômico, no concerto mundial.

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