Indústria brasileira aponta sufoco com o Custo Brasil

Indústria brasileira forte, competitiva, sustentável e internacionalizada é fundamental para o Brasil voltar a crescer

O Brasil não voltará a crescer mais de 3% ao ano de forma sustentada sem uma indústria forte, competitiva, sustentável e internacionalizada. Essa é a avaliação do presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Robson Braga de Andrade, expressada durante almoço com o presidente da República, Jair Bolsonaro, ministros e cerca de 500 empresários, nesta terça-feira (7) no Centro Internacional de Convenções do Brasil (CICB). Durante o evento, Robson Andrade entregou ao presidente Bolsonaro um conjunto de 44 propostas para a retomada da indústria e geração de emprego.

Participaram do evento presidentes de federações estaduais de indústria e das associações industriais, que integram o Fórum Nacional da Indústria (FNI), além de empresários da Mobilização Empresarial pela Inovação (MEI) e o presidente da Apex-Brasil, Augusto Pestana. O documento de propostas foi elaborado com base em subsídios das federações, associações, MEI e de reuniões com empresas coletados durante o ano e refinados em reuniões dos Fóruns e Conselhos Temáticos da CNI e do FNI.

O presidente da CNI explica que, nos últimos 10 anos, o setor agropecuário cresceu a uma taxa média anual de 3% ao ano. “O desempenho da agropecuária tem sido importantíssimo para evitar a queda do PIB brasileiro. Porém, a agropecuária não tem o poder de alavancagem da indústria, em especial da indústria de transformação. E não consegue, sozinha, puxar o resto da economia”, explica Andrade.

O presidente Jair Bolsonaro pegou o caderno com propostas e, rapidamente, entregou ao ministro da Economia, Paulo Guedes, a quem deu a missão de analisá-las e implementá-las. Bolsonaro disse que é importante encorajar as pessoas a investir cada vez mais no Brasil. “Os investidores não podem viver sob a sombra da incerteza, com insegurança jurídica”, disse. Além disso, avalia que o excesso de burocracia dificulta a vida do empresário brasileiro. “Como é duro ser patrão no Brasil. Quem emprega são vocês, nós somos devedores de favores para vocês. Quem cria a massa de empregados, quem gera riqueza no Brasil são vocês. Não podemos dificultar”, afirmou.

Indústria puxa o crescimento
Robson Andrade lembra que, a cada um real produzido na agropecuária, são produzidos R$1,75 na economia brasileira, enquanto um real produzido na indústria gera R$ 2,43. “A indústria de transformação tem um potencial de puxar o crescimento ainda maior. A cada R$ 1,00 produzido resulta R$ 2,67 no PIB. E nos últimos 10 anos, a essa indústria encolheu, em média, 1,6% ao ano. Perdeu espaço no PIB brasileiro e na produção mundial. Perdeu espaço nas exportações brasileiras e nas exportações mundiais de manufaturados”, explica.

O problema não é novo. A CNI alerta para a necessidade de redução do Custo Brasil desde 1995 e atinge sobretudo a indústria. De acordo com o presidente da instituição, “não é demais afirmar que empresários e trabalhadores industriais se esforçam em dobro para gerar cada real de produto industrial”. “Não é de espantar a baixa competitividade do Brasil. Precisamos e podemos fazer mais. O Brasil está muito atrás de seus concorrentes”, constata.

Também falaram em defesa da indústria, o presidente da Federação das Indústrias do Estado de Mato Grosso (FIEMT), Gustavo Oliveira, o representante da Mobilização Empresarial pela Indústria (MEI), CEO da TOTVS, Laércio Cosentino, e a presidente-executiva da Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa, Elizabeth Carvalhaes.

O ministro de Infraestrutura, Tarcísio Gomes, afirmou que está alinhado com as propostas apresentadas pela CNI para o enfrentamento das questões alinhadas ao aumento de produtividade e a ampliação e desenvolvimento da infraestrutura. “Vamos ver o Brasil de 2024 em diante se transformar em um grande canteiro de obras, com o que está sendo plantando agora”, garantiu.

Governo tem a oportunidade de realizar a mais importante das reformas para a redução do Custo Brasil
“Este governo tem a oportunidade de realizar, ainda nesse mandato, a mais importante das reformas para a redução do Custo Brasil. Uma reforma que outros governos não conseguiram fazer. Uma reforma que gerará um impacto extraordinário na competitividade da indústria brasileira e, consequentemente, no crescimento desse país e toda a nação”, afirmou o presidente da CNI.

Trata-se da reforma tributária sobre o consumo. O próprio ministro da Economia, Paulo Guedes, reconheceu que o sistema tributário brasileiro é a principal e mais pesada “bola de ferro amarrada nos pés dos empresários”. Sendo assim, o texto da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 110, que está no Senado Federal, tem o apoio da indústria.

A PEC reúne apoio suficiente para garantir sua aprovação. Tem o apoio de todos os 27 governadores e de grande parte dos prefeitos, expresso pelo apoio formal da Confederação Nacional dos Municípios à PEC 110. O SEBRAE, em nome das micro e pequenas empresas de todos os setores econômicos, também manifestou apoio formal à PEC 110. Além disso, o relatório do senador Roberto Rocha é totalmente compatível com a proposta do governo de criação da Contribuição de Bens e Serviços (CBS), em substituição ao PIS/Confins. “Mas só há como avançar se tivermos a liderança do senhor, presidente Bolsonaro, e do governo federal na condução do processo”, avalia o presidente da CNI.

Reduzir o Custo Brasil é essencial para um mundo digital
Representante da Mobilização Empresarial pela Indústria (MEI), CEO da TOTVS, Laércio Cosentino, reforçou o apoio às propostas para a retomada da indústria e geração de emprego e disse seguir confiante na desoneração da folha de pagamento.

“Reduzir o Custo Brasil é essencial para um mundo interligado em todos os sentidos, um mundo digital, sem fronteiras na contratação de inovação. O Brasil precisa de um ambiente cada vez mais competitivo, porque competimos com produtos e serviços de todo o mundo e competimos também com talentos e mão-de-obra”, afirmou, Laércio.

Cosentino também defendeu a expansão da educação profissional para evitar um apagão sistêmico de capital humano, além de ampliar a produtividade, e se preparar para quando o Brasil voltar a crescer.

Representando o FNI, a presidente-executiva da Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa, Elizabeth Carvalhaes, lembra a perda de espaço da indústria no Brasil e no exterior. Ela citou estudo da CNI que mostra a perda da diversidade da indústria em uma década. “Os bens de alto valor tecnológico têm sido os mais prejudicados”, diz.

Segundo Carvalhaes, as mudanças nas cadeias globais de valor, movimento do pós-pandemia, são uma oportunidade para o Brasil ampliar a sua inserção internacional, sendo assim, é necessário aumentar a competitividade e reduzir o Custo Brasil, que custa ao Brasil R$ 1,5 trilhão, além de política industrial que estimule a produção de produtos mais complexos. Ela defendeu a autonomia do Brasil para o desenvolvimento e pesquisa em todos os setores, em especial, de vacina. A empresária também defendeu a abertura da economia, a partir de acordos comerciais, além da internalização dos acordos com a União Europeia, Canadá e Associação Europeia de Comércio Livre (Efta).

Representando as federações estaduais de indústria, o presidente da Federação das Indústrias do Estado de Mato Grosso (FIEMT), Gustavo Oliveira, afirma que o Brasil está na frente do mundo na economia da verde. “O futuro do mundo é o nosso presente”, afirmou. Mas a pergunta é: o que falta?

Segundo ele, é preciso mostrar que a Amazônia tem mais ativos do que passivos ambientais, o Nordeste é exemplo de energias sustentáveis e o Centro-Oeste pode ser mais do que o celeiro do mundo, mas o supermercado do mundo. Todas as regiões brasileiras, diz, têm indústrias focadas para o desenvolvimento sustentável.

“O Brasil de Santos Dumont é a o Brasil da Embraer. O Brasil do Marechal Rondon é o Brasil da integração do 5G, mas vejo que temos mais dificuldades com regulação do que eles tiveram em suas épocas. Para investir e inovar é preciso financiamento, precisamos de mais mecanismos de financiamento público, com fortalecimento do BNDES e com prioridade para financiar a inovação industrial”, afirmou Gustavo Oliveira.

Temos realmente que fazer a reforma tributária, afirma o ministro Paulo Guedes
“Nosso esforço é de transformação do Estado brasileiro, controle dos desperdícios que, inclusive, compõem o Custo Brasil”, explicou o ministro da Economia, Paulo Guedes. Ele afirma que o Brasil foi desindustrializado ao longo dos últimos 20 e 30 anos, e se tornou prisioneiro de uma armadilha de crescimento zero. “A nossa proposta é reindustrializar o Brasil, com todos os marcos regulatórios, começamos com o do Gás Natural, a cessão onerosa do Petróleo, o Saneamento…”, afirma.

Segundo Paulo Guedes, o Brasil voltou da crise da pandemia em V, preservou 11 milhões de empregos no setor privado e protegeu 68 milhões de brasileiros. Atualmente, no terceiro ano de governo, tenta retomar as reformas estruturais. “Quando eu olho para o futuro, eu não consigo ver o Brasil não crescer. Queria deixar mensagem de otimismo, eu diria que das 44 propostas, nós já estamos trabalhando a quase dois anos em umas 40 delas. Fizemos mandala do custo Brasil, que é realmente de R$ 1,5 trilhão, então temos que fazer a reforma tributária”, afirmou.

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