Ainda há nuvens que prenunciam tempestades

Os apoios

Para alcançar o impeachment de Dilma, Temer contou, ao longo do tempo, com apoios fundamentais: o povo nas ruas, em grandiosas manifestações, o empresariado, ávido por reformas, e os parlamentares, descontentes com as relações entre o Congresso e Dilma.

Desses três apoios, o do povo nas ruas foi o primeiro a se esvair, restando, no decorrer do tempo, manifestações cada vez menos numerosas e insuficientes para continuar estabelecendo definitiva condição de causa e efeito no impeachment.

Restaram, então, o irrefreável desejo do empresariado pelas reformas, especialmente a fiscal, a previdenciária e a trabalhista, e o incontido anseio de deputados e senadores por uma maior interlocução com o Palácio do Planalto, e suas inestimáveis benesses.

Foram, portanto, essas duas forças as mais importantes para que, afinal, o processo de impeachment chegasse a seu desfecho, nesta histórica quarta-feira, 31 de agosto de 2016, que haverá de ser estudada pelos séculos adiante.

A deposição da agora ex-presidente Dilma Rousseff, após 13 anos de governos do Partido dos Trabalhadores, e a consequente posse de Michel Temer, do Partido do Movimento Democrático Brasileiro, fiador da redemocratização do país, porém, não encerra o fato histórico.

Tempo urge

Temer, em tese, tem dois anos para atender aos anseios dessas duas importantes vertentes provocadoras do impeachment presidencial, parlamentares e empresariado, uma vez que o seu mandato segue até dezembro de 2018. Em janeiro, assume o novo presidente.

Porém, a rigor, dispõe, no máximo, até dezembro deste ano de 2016 para confirmar as aspirações desses dois segmentos, com o empresariado vivendo uma impaciência que pode se esgotar em um tempo mais curto, ainda.

Exemplo dessa impaciência pode ser observado no comportamento do mercado, nesta quinta-feira, 01, o day after do impeachment. Não acontece qualquer tipo de reação extraordinária no movimento diário da Bolsa, que fechou com uma alta modesta de 0,58%.

Na verdade, os investidores mostram-se extremamente cautelosos, especialmente com as dificuldades que parecem estarem sendo enfrentadas por Temer para aprovação das reformas requeridas pelos agentes econômicos ligados ao capital.

Reina a desconfiança de que o presidente, agora definitivo, não possuiria, na dimensão que o mercado achava que ele tinha, poder absoluto sobre a base parlamentar, mais heterogênea e fisiológica do que se esperava.

Dificuldades

Com efeito, a base parlamentar de Temer, além daquela parte irrefreavelmente desejosa de recursos orçamentários para as bases, em uma realidade de ajuste fiscal, apresenta conflitos entre, de um lado, o PSDB e o DEM, e do outro, o próprio PMDB. Sem falar no Centrão.

O conflito tem a ver com as eleições de 2018, pela Presidência da República. Mesmo que Temer não possa ou não queira ser candidato à reeleição, é bastante factível que, com o sucesso do governo peemedebista, o partido queira apresentar uma candidatura.

Assim, o PSDB e o DEM ficam entre a cruz e a caldeirinha: o sucesso do governo Temer pode não ser exatamente o que a antiga ferrenha oposição ao governo petista pensava que iria acontecer após o impeachment.

É fato que Independe dessa unidade da base algumas medidas do governo Temer, como, por exemplo, as privatizações em larga escala, que agrada ao mercado. Mas, aí, vai enfrentar a dura oposição do PT, e de Dilma e Lula, no Congresso e nas ruas, eles, absolutamente revoltados com o impeachment.

Aliás, é essa oposição ferrenha anunciada por Dilma, e confirmada pelos petistas, outra das variáveis de elevado prejuízo às reformas pretendidas por Temer. Talvez o que mais saiba disso é o presidente do Senado Renan Calheiros. Contudo, incompreendido e questionado.

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