Não se come dinheiro

Leonardo Milhomem

É praticamente impossível não se sensibilizar com o que está acontecendo no Rio Grande do Sul. As notícias, infelizmente, ainda não são boas. O número de mortos tem aumentado, assim como a chuva ainda não cessou e o Guaíba continua a subir. Mas vale lembrar que estamos falando de um dos maiores desastres ambientais já ocorridos no Brasil.

Hoje, depois de assistir ao noticiário mais uma vez, me veio à mente uma triste frase que reli recentemente em um dos livros de Ailton Krenak: “Somente quando for cortada a última árvore, poluído o último rio, pescado o último peixe é que o homem vai perceber que não pode comer dinheiro” (Alanis Obomsawin, tradução livre).

Recentemente, escrevi que não é possível ainda concluir que 100% da culpa do que está acontecendo seja de fato do aquecimento global ou provocado única e exclusivamente por algum problema ambiental. No entanto, as evidências têm apontado para este caminho. Temos de fato um problema ambiental a ser superado pelo mundo todo e as consequências vão acontecer cada vez mais com mais frequência, não só no Rio Grande do Sul, mas também em outros lugares.

Quando os ambientalistas serão ouvidos? Há quem diga ainda que os ambientalistas atrapalham o desenvolvimento e que esse desenvolvimento pode trazer emprego e renda para milhares de pessoas. Pois bem, ao ver as imagens do Rio Grande do Sul, não me parece que a falta de preservação do meio ambiente tenha trazido bons resultados, não é mesmo? Ouvir ambientalistas e cientistas (que podem ser uma só pessoa) pode evitar rompimentos de barragens, desertificação, aparecimento de doenças e enchentes.

Mas voltando à frase de Alanis Obomsawin, ainda não cortamos a última árvore, ainda não poluímos o último rio e nem pescamos o último peixe, mas, mesmo assim, as consequências são assustadoras. Enquanto alguns se desenvolvem e ganham muito dinheiro, outros mais pagam a conta da pior forma: com a casa, com a empresa, com o emprego e, infelizmente, até mesmo com a vida!

Muitos agricultores também perderam tudo, e antes que se entenda que é uma crítica a quem vive da terra, é importante esclarecer que, tudo é uma questão de equilíbrio. Se não pararmos para pensar e discutir seriamente o aquecimento global, por exemplo, vai ficar ruim para todo mundo. E até “o celeiro do mundo” estará ameaçado” ou alguém acha que a safra do RS vai ser boa? A questão é: é possível se desenvolver sem causar isso tudo?

Isso vale para o Rio Grande do Sul, mas também vale para a barragem de Mariana (MG), de Brumadinho (MG), para os intoxicados por mercúrio e assim por diante. Reitero a pergunta: é possível se desenvolver sem causar isso tudo?

Teremos muitas outras colunas para discutir as soluções, mas finalizo este texto com meu respeito e meus pêsames às vítimas da negligência ambiental.

* Leonardo Milhomem é especialista em gestão de Políticas e Sistemas Educacionais pela Escola Nacional de Administração Pública. É mestre em Gestão de Políticas e Sistemas Educacionais pela Universidade de Brasília (UnB) e possui mais de 20 anos de experiência incluindo a área ambiental, educacional e social. Além disso, tem experiência no terceiro setor, setor privado e no serviço público, onde ocupou cargos importantes de coordenação-geral e direção em diversos ministérios.

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