Ganhamos nosso primeiro deserto?

Leonardo Milhomem *

Pouca chuva, muita areia, cores quentes, dunas. Tenho certeza que esta é a imagem que vem à cabeça de muitos dos leitores ao passar os olhos sobre a palavra “deserto”.

E no Brasil temos deserto?

Em princípio o que mais se aproxima disso é o que conhecemos como como “Semiárido”, uma região do Nordeste (e norte de Minas Gerais) também conhecida como sertão onde prevalece a famosa Caatinga (bioma o bioma).

A palavra aridez está exatamente relacionada à secura, baixa umidade, pouca chuva, mas o prefixo “semi” apresenta a ideia de “quase”. Então, de forma muito coloquial, podemos dizer que o semiárido é quase um deserto. Em outras palavras, significa dizer que o clima semiárido é aquele que é intermediário entre climas desérticos e climas úmidos.

Mas o que pouca gente sabe é que para se determinar o clima de uma região há muita matemática e cálculo envolvido. De forma bem simplificada, calcular a aridez envolve fazer uma razão entre o tanto de água que cai (chove ou precipita) e a quantidade que evapora e em uma determinada região. E com base em muita coleta de dados nas estações meteorológicas, e tendo como referência esta razão, é que se calcula o índice de aridez.

No Brasil nós temos quem faça isso, e melhor ainda, quem faça isso há muito tempo. Para trazer alguns exemplos práticos vamos pegar o caso do Distrito Federal. Entre 1960 e 1990, o Índice de Aridez estava entre 1 e 1,2, o que significa que nesta região chovia tanto ou mais do que o que evapora (evapotranspiração).

Se este mesmo índice for próximo de 0,5 temos, então, que o clima é semiárido e se for menor que 0,2, ele recebe a classificação de região “árida” (popularmente podemos chamar de deserto). Neste último caso chove tão pouco e a evapotranspiração é tão significativa que começa-se a inviabilizar a vida e, ou seja, fica difícil a agricultura, a criação de animais e, por consequência, a povoação deste local.

Mas como medir isso. É exatamente isso que o Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais (Cemaden), em conjunto com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), fez. Eles coletaram informações desde a década de 1960 até 2020, separaram em janelas de 30 anos e calcularam o índice de aridez para todo o Brasil.

Quem já ouviu falar em aquecimento global, ou sentiu na pele que os últimos anos foram mais quentes com recordes de temperatura já deve estar imaginando o resultado do estudo. Ao longo das décadas (1960 a 2020), o estudo concluiu que houve um aumento da aridez principalmente por conta do aumento da temperatura (sim, também estamos sofrendo com o aquecimento global), o que faz aumentar significativamente a evaporação.

Observou-se, ainda, que a área do semiárido brasileiro tem crescido a uma taxa média de 75 mil km2 e que, pela primeira vez, apareceu uma área definida tecnicamente como árida no centro da Região Nordeste, mais especificamente ao norte da Bahia, bem na divisa com Pernambuco.

Em outras palavras, os cálculos vêm demonstrando, cada vez mais, que estamos passando por um processo de aquecimento global e que os ambientalistas, muitas vezes não ouvidos, parecem estar certos.

Vale observar que as consequências desta vez não são apenas ambientais, mas também econômicas, afinal como desenvolver agricultura e pecuária, tradicionais nesta região, em um deserto?

E para responder à pergunta do início desta coluna, sim caro leitor, em breve os livros didáticos deverão ser atualizados para ampliar a área considerada como semiárido e deverão apresentar o primeiro deserto Brasileiro. A desertificação é um processo em curso no Brasil, ironicamente, às margens de um dos maiores rios do Brasil, o Velho Chico.

** Leonardo Milhomem é especialista em gestão de Políticas e Sistemas Educacionais pela Escola Nacional de Administração Pública. É mestre em Gestão de Políticas e Sistemas Educacionais pela Universidade de Brasília (UnB) e possui mais de 20 anos de experiência incluindo a área ambiental, educacional e social. Além disso, tem experiência no terceiro setor, setor privado e no serviço público, onde ocupou cargos importantes de coordenação-geral e direção em diversos ministérios.

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