BRASÍLIA E SUAS HISTÓRIAS. O despejo dos hóspedes do Brasília Palace Hotel

Sérgio Botelho – Os dias que antecederam a inauguração de Brasília foram particularmente angustiantes aos que chegavam à cidade para morar ou para participar da festa do dia 21 de abril. De todas as partes do país vinham caravanas ou automóveis com famílias que desejavam estar na festa histórica. Afinal de contas, o Brasil passava a ter uma nova capital, construída quase que totalmente do zero, a substituir o Rio de Janeiro, sede do governo brasileiro desde 1763. Mas os problemas com hospedagem e moradia eram gritantes. Grande parte dos deputados federais que começavam a chegar à nova capital simplesmente encontravam seus apartamentos funcionais sem condições de habitabilidade. No mínimo, faltavam os móveis. Nos casos mais graves, os prédios destinados a servir de habitação aos parlamentares estavam inacabados. Não foram poucos os protestos dos representantes estaduais no parlamento brasileiro, especialmente da parte dos que continuavam a reclamar da mudança de capital. Se isso acontecia com os parlamentares, avaliem com os visitantes, aos milhares. Jornalistas brasileiros e de várias partes do mundo, incumbidos de cobrir a inauguração de uma nova cidade-capital, sofriam com a falta de alojamentos. Somados aos problemas que ainda afligiam as ligações telefônicas, apesar de formalmente inaugurado pelo presidente da República, e os meios de comunicação em geral, afora o abastecimento d’água e de alimentos, a situação geral beirava o caos. Ao descer no aeroporto, os turistas e promitentes moradores se deparavam com um quadro quase infernal. Para onde ir? À margem das avenidas da cidade e em quadras inacabadas eram erguidas barracas de campanha, para alojamento, incluindo algumas para alimentação e bebidas. Ao lado de tudo isso, a dois dias da inauguração – e muito tempo depois -, os trabalhos de construção de Brasília prosseguiam dia e noite, sem parar. Coincidentemente, nos primeiros 15 dias de abril, antecedendo, portanto, a inauguração, 1,9 bilhão de cruzeiros havia sido emitido pelo governo federal. Em 18 de abril, três dias antes da festa da nova capital, todos os hóspedes do Brasília Palace Hotel foram despejados. Sem dó nem piedade! A partir daquela ocasião, todos os aposentos do hotel passaram a ser utilizados pelos convidados do governo federal. Nada, porém, que fosse capaz de impedir a decisão de Juscelino em inaugurar e pôr a nova capital em funcionamento. E assim foi feito. Em 21 de abril de 1960, debaixo de muitas pompas e circunstâncias, o presidente Juscelino Kubitschek deu por inaugurada Brasília, que passou à condição de capital do país, mudando todos os mapas do mundo, e a própria história do Brasil. Até ali, nós, que cursávamos ainda o que se chamava oficialmente de ‘curso primário’, e que já tínhamos de cor e salteado em nossas mentes que à pergunta “qual é a capital do Brasil”, respondíamos automaticamente “Rio de Janeiro”, tivemos de decorar a nova realidade e respondermos “Brasília”. Lembro muito disso!
 
(Na foto da Agência Brasília, o Brasília Palace Hotel, na época de sua inauguração, em 1958, antecedendo a própria inauguração da nova capital do Brasil)
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