BRASÍLIA E SUAS HISTÓRIAS. O desnível criado na interseção dos eixos Monumental e Rodoviário

Sérgio Botelho – Uma das principais características do terreno reservado para ser construída a cidade de Brasília foi a de ser plano e bem regular. Logo, fator admirado como capaz de proporcionar melhores condições à construção de uma cidade do porte da nova capital federal. Para o então presidente Juscelino Kubitschek, que levou a intenção de construir Brasília a ferro e fogo, essa era uma condição bastante promissora.

Afinal, sabia JK do Partido Social Democrático (PSD) que se não terminasse a obra dentro do seu período de governo (1956-1961), o eventual substituto não iria garantir o término do projeto, frente às imensas dificuldades e a ferrenha oposição da velha União Democrática Nacional (UDN) à mudança da capital.

Aliás, não somente a UDN fazia oposição à construção de Brasília, mas também a maioria dos estados da Federação, incluindo São Paulo e, claro, a então capital Rio de Janeiro. Embora amigo de Juscelino, o paraibano Assis Chateaubriand, dono da poderosa organização jornalística Diários Associados, por falta de crença no sucesso da empreitada, exercia dura crítica à edificação da nova cidade.

Para Lúcio Costa, o engenheiro formulador do projeto campeão do certame de 1957, a estética final da imensa obra impunha um acréscimo de trabalho que arrumava dificuldades à agilidade necessária à sua execução. Contando com a ajuda das tecnologias de engenharia disponíveis, no entanto, passou a cavar um imenso desnível na interseção dos eixos Monumental e Rodoviário, que não existia.

Em 14 de junho de 1959, o jornal Estado de São Paulo assim se referia à ação técnico-estética: “Em Brasília, a preocupação com as soluções em desnível atinge as raias da obsessão. No cruzamento do chamado Eixo Monumental Este-Oeste, com o Eixo Rodoviário Norte-Sul, exatamente no centro da cidade, portanto, está sendo criado um vale de proporções não inferiores às do Vale do Anhangabaú, em São Paulo. Uma escavação cujas dimensões avaliamos em 400 metros de comprimento por cerca de 150 de largura com mais de 20 metros de profundidade, está sendo realizada a fim de criar o cruzamento em desnível dos eixos de tráfego”.

Como se sabe, o projeto foi conduzido sem destemor, apesar das críticas, sendo a solução criada exatamente a Rodoviária do Plano Piloto, dividida em pavimentos, e por baixo, o Buraco do Tatu. Por cima de tudo, o Eixo Rodoviário, atravessado, por baixo, pelo Monumental. Porém, as escavações visando mudar a topografia natural da região não se limitaram àquele espaço. Mais na frente, na criação largo em frente ao Palácio do Congresso, com a construção do espelho d’água, também foi necessário um rebaixamento, igualmente criticado na matéria, que a tudo considerava ser apenas obediente ao “desejo de criar um ambiente espetaculoso e monumental que, de resto, poderia ser obtido por outros meios menos forçados”. Agora, aqui para nós outros dos dias atuais: o resultado ficou maravilhoso!

(A foto é de Marcello Casal, da Empresa Brasileira de Comunicação-EBC)

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