Em 3 meses, 71 milhões vão à pobreza, no mundo em desenvolvimento

Fome

Em apenas três meses, 71 milhões de pessoas no mundo em desenvolvimento tornaram-se pobres alerta o PNUD

O impacto nas taxas de pobreza, drasticamente mais rápido do que o choque da pandemia de COVID-19, é consequência direta dos aumentos globais dos preços de alimentos e energia, um dos efeitos em cascata da guerra na Ucrânia.

A análise, feita em 159 países em desenvolvimento, indica que os picos de preços em commodities-chave já estão tendo impactos imediatos e devastadores nas famílias mais pobres, com pontos críticos nos Balcãs, países da região do Mar Cáspio e África Subsaariana.

71 milhões de pessoas no mundo em desenvolvimento tornaram-se pobres em apenas três meses como consequência direta dos aumentos globais dos preços de alimentos e energia. 

Legenda: 71 milhões de pessoas no mundo em desenvolvimento tornaram-se pobres em apenas três meses como consequência direta dos aumentos globais dos preços de alimentos e energia.

As crescentes taxas de inflação provocaram um aumento no número de pessoas pobres nos países em desenvolvimento. Foram 71 milhões em apenas três meses, desde março de 2022, alertou o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) em relatório divulgado este mês (julho).

À medida que as taxas de juros se elevam, em resposta à subida da inflação, existe o risco de se desencadear mais pobreza, induzida pela recessão que pode exacerbar ainda mais a crise, acelerando e aprofundando a pobreza em todo o mundo, aponta o informe “Enfrentando a crise do custo de vida nos países em desenvolvimento: projeções de pobreza e vulnerabilidade e respostas políticas” (em tradução livre do inglês).

Os países em desenvolvimento, às voltas com reservas fiscais esgotadas e altos níveis de dívida pública, bem como taxas de juros crescentes nos mercados financeiros globais, enfrentam desafios que não podem ser resolvidos sem atenção urgente da comunidade global.

A análise de 159 países em desenvolvimento indica globalmente que as altas de preço de commodities-chave já estão tendo impactos imediatos e devastadores nas famílias mais pobres, com pontos críticos mais evidentes nos Balcãs, países da região do Mar Cáspio e África Subsaariana (em particular a região do Sahel), segundo as estimativas do PNUD.

O relatório amplia os insights apresentados nos dois resumos do Grupo de Resposta a Crises Globais, do secretário-geral da ONU, sobre os efeitos em cascata da guerra na Ucrânia.

“Aumentos de preço sem precedentes significam que, para muitas pessoas no mundo todo, a comida que elas podiam comprar ontem não é mais acessível hoje”, afirmou o administrador do PNUD, Achim Steiner. “Essa crise de custo de vida está levando milhões de pessoas à pobreza e até a fome, a uma velocidade de tirar o fôlego e, com isso, a ameaça de aumento da agitação social cresce a cada dia”.

Escolhas difíceis – Os formuladores de políticas que respondem à crise do custo de vida, principalmente nas nações mais pobres, enfrentam escolhas difíceis. O desafio é equilibrar um alívio significativo de curto prazo para famílias pobres e vulneráveis em um momento em que a maioria dos países em desenvolvimento está lutando com a redução do espaço fiscal e o aumento da dívida.

“Estamos testemunhando uma divergência crescente e alarmante na economia global, à medida que países em desenvolvimento enfrentam a ameaça de ser deixados para trás enquanto lutam para lidar com a contínua pandemia de COVID-19, níveis escorchantes de dívida e agora uma crise alimentar e energética acelerada”, disse o administrador do PNUD. 

“No entanto, novos esforços internacionais podem debilitar este ciclo econômico vicioso, salvando vidas e meios de subsistência – isso inclui adotar medidas decisivas de alívio da dívida; manter as cadeias de abastecimento internacionais abertas; e agir de forma coordenada para garantir que algumas das comunidades mais marginalizadas do mundo possam ter acesso a alimentos e energia a preços razoáveis”.

Os países tentaram atenuar os piores impactos da crise atual recorrendo a restrições comerciais, estímulos fiscais, subsídios gerais à energia e transferências de dinheiro direcionadas. O relatório conclui que as transferências de dinheiro direcionadas são mais equitativas e econômicas do que os subsídios gerais.

Subsídios de energia – “Embora os descontos na conta de luz possam ajudar no curto prazo, no longo prazo eles promovem desigualdade, exacerbam ainda mais a crise climática e não suavizam o golpe imediato do aumento do custo de vida tanto quanto as transferências de dinheiro direcionadas”, afirmou o autor do relatório e chefe de Policy Engagement Estratégico do PNUD, George Gray Molina. “Eles oferecem algum alívio como curativo imediato, mas correm o risco de causar lesões piores ao longo do tempo”.

O relatório mostra que os subsídios de energia beneficiam desproporcionalmente as pessoas mais ricas, com mais da metade dos benefícios de um subsídio de energia universal favorecendo os 20% mais ricos da população. Em contraste, as transferências de dinheiro vão principalmente para os 40% mais pobres da população.

“O dinheiro nas mãos das pessoas que estão sofrendo com os aumentos astronômicos de preço de alimentos e combustíveis terá um impacto generalizado de maneira positiva”, disse Molina. “Nossa modelagem mostra que mesmo transferências de dinheiro muito modestas podem ter efeitos consideráveis e estabilizadores para os mais pobres e vulneráveis ​​nesta crise. E sabemos pelas respostas da COVID-19 que os países em desenvolvimento devem receber apoio da comunidade global para ter espaço fiscal de maneira a financiar esses programas (de transferência de renda)”, completou.

Moratória – Molina acrescentou ainda que, para liberar os recursos necessários, uma moratória da dívida oficial por dois anos deve ser considerada para ajudar todos os países em desenvolvimento – independentemente do PIB per capita – a se recuperarem dos choques. Isso ecoa os apelos recentes das Instituições Financeiras Internacionais por mais liquidez para os países em desenvolvimento.

A pandemia da COVID-19, sozinha, elevou a dívida dos países em desenvolvimento a sua maior alta em 50 anos, o equivalente a mais de duas vezes e meia suas receitas, segundo o Banco Mundial.

Os países que enfrentam os impactos mais drásticos da crise em todas as linhas de pobreza são a Armênia e o Uzbequistão na Ásia Central; Burkina Faso, Gana, Quênia, Ruanda e Sudão na África Subsaariana; Haiti na América Latina; e Paquistão e Sri Lanka no sul da Ásia. Na Etiópia, Mali, Nigéria, Serra Leoa, Tanzânia e Iêmen, os impactos podem ser particularmente fortes nas linhas de pobreza mais baixas, enquanto na Albânia, República do Quirguistão, Moldávia, Mongólia e Tadjiquistão os impactos podem ser mais severos.

Crédito da foto: Fundação Abrinq

Edição do Anexo 6: Sérgio Botêlho, com informações das Nações Unidas

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